segunda-feira, 10 de junho de 2013

LUZ

As paredes de cimento esfriavam cada vez mais o ambiente, desprovido de mobiliário e acolhido apenas pelas singelas camas de ferro, oferecendo aconchego aos finíssimos colchões, cobertos por lençóis brancos e mantas cinzentas. Através das paredes de vidro via-se o corredor enegrecido pela escuridão do princípio de noite, tentando engolir as luzes difusas das celas.

O médico fazia a última ronda do dia, de chart na mão, tomando qualquer nota que definisse como necessária. Sem qualquer sentimento a evidenciar-se no semblante indiferente, parava momentaneamente junto de cada uma das celas, os óculos de hastes escuras e lentes redefinindo os olhos num tamanho diminuto, olhando através das paredes de vidro para os respectivos ocupantes. Alienados, nenhum dos dez parecia dar conta da sua presença, enquanto prostrados, imóveis, de olhos cerrados.

Terminou a diligência, regressou ao laboratório, passando o porta de grades de  ferro, onde o segurança o aguardava. Arrecadou o chart com as anotações e sentou-se frente ao computador, onde registou as observações. No gabinete dos seguranças, o barulho aumentava com o jogo de cartas que decorria. Alguém fizera batota, e as hostes embraveciam-se.

“Cambada de bárbaros que haviam de ter colocado aqui! Não sabem guardar silêncio. A ver se acabo isto depressa que não estou para apanhar com estes imbecis.”

Uma hora depois terminava o relatório. Retirou os óculos e colocou-os na bolsa da pasta. Despiu a bata branca, tirou o anorak do cabide, vestindo-o apressadamente e de pasta na mão saiu desejando – contrariado – uma boa noite aos ocupantes do gabinete, e dando uma última olhadela para o corredor enegrecido, onde tudo estava em silêncio.

“De onde terão vindo aqueles miúdos? Uma pessoa tem que estudar e registar sem saber do que se trata... E se têm pais, devem estar loucos da vida… Poderes?! Eu não vejo nada além de dez crianças petrificadas, apáticas, com amostras de sangue perfeitamente normais e saudáveis, e a tensão arterial elevada, o que se justifica, atendendo...”

Sentou-se no Fiat quinhentos. Estava frio. O pensamento desviou-se para uma caneca de cacau quente e para a colecção de selos. Não lhe apetecia jantar. Tinha comido uma sandwich às seis e meia da tarde. Mas o cacau e os selos… Isso sim! Ia saber-lhe bem!

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No gabinete, os seguranças estavam mais calmos, tendo dado continuidade ao jogo de cartas, os quatro absortos pela sede de vencer.

O corredor manifestava um aumento de luminosidade, embora ténue. Mas o silêncio mantinha-se, indiferente aos sons no exterior. Colados agora aos vidros, dez rostos pequenos permaneciam imóveis, cada um confinado à sua cela.

Dez crianças aparentemente normais... Ninguém no laboratório percebia aquele confinamento imposto. As devidas entidades haviam recrutado o pessoal mínimo para ali trabalhar e zelar pelo segredo. Estavam todos impedidos de falar acerca do que ali se passava, sob juramento, e desconhecendo o poder daquelas entidades empregadoras, bem como o das crianças detidas.

Os dez rostos mantinham-se imóveis. Crianças entre os cinco e os onze anos... Estranho era aquele estado de latência inexplicável. Na verdade, a única preocupação dos cientistas e médicos daquelas instalações.

Lentamente, a luz do corredor aumentava enquanto dez pares de olhos se iluminavam impondo luz sobre o espaço deserto. Vinte feixes de luz reproduziam-se sobre as paredes de cimento. As portas das celas, trancadas, deslizaram, promovendo a saída aos seus ocupantes. Sem pressas encaminharam-se para o exterior. Pararam, estáticos, a comunicar uns com os outros, em silêncio.

Juntos, caminharam na direcção do gabinete dos seguranças. O portão de grades de ferro abriu, dando-lhes passagem. Passaram as janelas de vidro, olhos iluminados. Os seguranças mantiveram-se entregues ao jogo, mentes controladas, incapazes de perceber a passagem dos miúdos.

Seria com certeza difícil, dez crianças passarem despercebidas na rua, num início de noite, todas vestidos de calças e camisolas de fato de treino cinzentos, de cateteres presos às mãos esquerdas e olhos iluminados. Não havia o que pudesse produzir uma ideia contrária, podendo-se vislumbrar aquela estranha visão. Mas ali perto, naquele descampado, não havia ninguém. Caminharam, muito juntos, em direcção à civilização.

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As ruas estavam ainda bem movimentadas, na rapidez da hora. Atravessaram a estrada, imobilizando o trânsito que num instante sem recordação, sem qualquer manifestação de embate, estancou, permitindo a passagem. E chegados à outra margem, o trânsito retomou naturalmente o seu curso.

Continuaram, compenetrados, conscientes do seu destino, invisíveis ao olhar dos restantes, que sem perceberem sequer a presença dos dez pares de luzes brancas azuladas, intensas, se desviavam para permitir a passagem.

À entrada do hospital, as palmeiras, acometidas de uma pestilência fatal, retomaram um ar viçoso e salutar.... Avançaram, num passo homogéneo, em direcção à entrada.

O hospital, em época de gripe, apresentava-se apinhado de doentes que tossiam e espirravam, mais os seus acompanhantes, inicialmente atravancando a passagem. Todos aqueles corpos agitados pela espera, cederam o chão, sem darem conta.

Percorreram os corredores, com um destino traçado. Na enfermaria dos doentes terminais, uma mulher jazia, inerte, ligada a uma meia dúzia de tubos e máquinas, imitindo um ténue som constante, que denunciava a presença de uma vida pendente. Aproximaram-se os dez, formando um circulo, de mãos unidas e olhos elevados. A luz emitida pelos olhos uniu-se no ar, ao centro, produzindo um feixe que se infiltrou por todo o corpo da mulher. O corpo inerte iluminou-se, estremeceu, balançando, como se estivesse entregue a uma convulsão silenciosa. E repentinamente parou, novamente prostrada sobre a cama. Os dez afastaram-se, retomando o caminho de regresso à saída do hospital.

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No laboratório, o médico terminava a análise das novas amostras de sangue, deliberando acerca dos resultados, iguais a todos os anteriores. Nada! Na bancada ao lado, o neurólogo registava os resultados dos exames neurológicos. Nada! Uma cognição inquestionável, um raciocínio lógico apurado em todos os dez casos. Nada a apurar: destreza exímia, rapidez nos reflexos e nas respostas. 

Uma hora por dia, ao longo das últimas quatro semanas, as dez crianças ganhavam vida, dando resposta a todos os exercícios impostos, a todas as necessidades de investigação. Depois, novamente aquele estado de latência, oscilando entre a posição sentada e a deitada. Mas sempre, em todos os momentos do total das vinte e quatro horas, o silêncio; a ausência de voz, de palavras.

O que manteria aquelas crianças naquele estado? E porque razões as teriam trazido para ali, e não para um hospital?

A verdade é que não havia sinais de doença, vírus ou bactéria. Absolutamente nada!

- Ouviram as notícias?

O psiquiatra regressava da hora de almoço, provido de três cafés. O clínico e o neurólogo ergueram os olhos, expectantes quanto ao resultado daquela intervenção, acenando negativamente.

- Antes de ontem, no hospital, assim sem mais nem menos, a mulher, a doente terminal, a do carcinoma uterino, deixou repentinamente de manifestar qualquer sintoma. Depois de lhe realizarem os exames necessários, não encontraram absolutamente nada! Nada! Era terminal! Tem alta amanhã. E ainda há quem não acredite em milagres! Pode ser que agora nos possa ajudar...

O clínico ergueu-se da sua cadeira, avançando em direcção à porta.

- Não queres o café?

- Já bebo!


Caminhou na direcção das celas. Uma a uma observou, na esperança de ver alguma resposta. Como, não sabia. Mas algo lhe dizia que elas eram a fonte daquela cura: demasiada pureza; demasiada paz; demasiada inocência; demasiados segredos... As crianças mantinham-se inertes, prostradas sobre as camas, inexplicavelmente.


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